No tocante ao livro "Aristóteles em 90 minutos", de Paul Strathern.

 

O livro Aristóteles em 90 minutos, escrito por Paul Strathern, apresenta de forma clara, envolvente e acessível a vida, o pensamento e o legado de um dos maiores filósofos da história. Pertencente à coleção “Filósofos em 90 minutos”, a obra tem como objetivo condensar os principais aspectos biográficos e conceituais de Aristóteles, oferecendo ao leitor uma introdução rápida, mas consistente, à sua filosofia. A leitura é dinâmica, alternando narrativa histórica, explicação filosófica e toques de humor característicos do autor.

Paul Strathern é um escritor e professor britânico reconhecido por sua habilidade em divulgar temas complexos de maneira compreensível. Formado em filosofia e matemática, ele se dedicou a aproximar o público geral do pensamento filosófico e científico por meio de sua série de livros curtos sobre grandes pensadores. Seu estilo combina informação rigorosa com leveza narrativa, resultando em obras que não apenas informam, mas também despertam curiosidade intelectual. Em Aristóteles em 90 minutos, Strathern mantém essa proposta, apresentando o filósofo estagirita (nascido em Estágira, na Macedônia) com equilíbrio entre profundidade e simplicidade.

O assunto central do livro é a vida e a obra de Aristóteles, pensador grego do século IV a.C., discípulo de Platão e mestre de Alexandre, o Grande. Considerado o “pai da lógica” e o criador da primeira sistematização do conhecimento humano, Aristóteles abordou praticamente todos os campos do saber: ética, política, biologia, física, metafísica, arte e retórica. Sua filosofia se baseia na observação e na razão, buscando compreender o mundo real e suas causas, em contraste com o idealismo platônico. A influência de suas ideias foi decisiva para o desenvolvimento da ciência, da ética e da filosofia ocidental.

A seguir, será realizada uma exposição sintetizada do livro “Aristóteles em 90 minutos”, de Paul Strathern, com algumas opiniões e reflexões sobre conteúdos específicos da obra.

O livro inicia com uma breve introdução em que Strathern destaca a amplitude da produção aristotélica. O autor observa que Aristóteles escreveu sobre praticamente tudo, desde a estrutura das conchas do mar até a natureza da alma. Essa característica revela seu espírito enciclopédico e sua busca por compreender a totalidade da realidade. Ao mesmo tempo, o autor reconhece que o método de categorização de Aristóteles, embora revolucionário em sua época, acabou limitando o avanço do conhecimento em séculos posteriores. Essa reflexão abre o livro com uma perspectiva equilibrada entre admiração e crítica.

Em seguida, o autor inicia a narrativa biográfica com uma descrição quase literária do local de nascimento do filósofo. Strathern visita a moderna Estagira e a compara às ruínas da antiga cidade, criando uma cena vívida que aproxima o leitor da figura histórica de Aristóteles. Esse recurso narrativo torna a leitura mais envolvente e menos acadêmica, permitindo que o público perceba o filósofo não apenas como um nome distante, mas como um homem real, com trajetória, ambiente e desafios.

O livro mostra que Aristóteles nasceu em 384 a.C., em uma família ligada à medicina. Seu pai, Nicômaco, era médico do rei da Macedônia, o que o colocou em contato com o pensamento científico desde cedo. Strathern destaca que essa origem influenciou a postura racional e empírica do filósofo, que sempre preferiu observar e experimentar em vez de aceitar ideias puramente teóricas. Essa herança científica é um dos traços mais fortes da filosofia aristotélica e ajuda a explicar seu método lógico e sua valorização da experiência sensível.

A passagem de Aristóteles pela Academia de Platão ocupa um espaço central na obra. Strathern narra esse período com humor e admiração, destacando como o jovem discípulo logo se destacou entre os estudantes. Apesar da influência platônica inicial, Aristóteles não se conformava em seguir cegamente o mestre. Quando percebia contradições nas ideias de Platão, não hesitava em apontá-las. Essa atitude crítica mostra um traço fundamental de sua filosofia: a busca pela verdade acima da lealdade pessoal. O autor observa que essa tensão entre mestre e discípulo foi o ponto de partida para o surgimento de uma nova visão do mundo.

Strathern explica de maneira simples a diferença entre o idealismo de Platão e o realismo de Aristóteles. Enquanto Platão acreditava que as ideias ou “formas” existiam num mundo separado, Aristóteles afirmava que a realidade verdadeira está nas próprias coisas, e não fora delas. Essa inversão é um marco da filosofia, pois desloca o centro da reflexão do mundo das ideias para o mundo concreto. A clareza com que o autor explica essa transição ajuda o leitor a compreender como Aristóteles contribuiu para o nascimento da ciência moderna.

O livro também aborda a relação de Aristóteles com o poder e a política. Strathern relata sua ligação com o rei Filipe da Macedônia e, posteriormente, com Alexandre, o Grande, de quem foi tutor. Apesar da fama dessa relação, o autor observa que o jovem Alexandre aprendeu pouco com o mestre e seguiu seu próprio caminho. Ainda assim, essa convivência mostra como a filosofia e a política se cruzavam no mundo antigo. Aristóteles via a política como uma ciência prática e acreditava que o Estado deveria buscar o bem comum, formando cidadãos virtuosos e racionais.

Um dos momentos mais interessantes da obra é a explicação da ética aristotélica. Strathern apresenta a famosa doutrina do “meio-termo”, segundo a qual a virtude está entre dois extremos. A coragem, por exemplo, é o meio entre a covardia e a imprudência. O autor comenta que, embora essa ideia possa parecer simples, ela representa um grande avanço: ensina que a moral depende da moderação e da razão. Em suas reflexões, Strathern mostra que essa ética continua atual, pois propõe equilíbrio e prudência em um mundo marcado por excessos.

O autor dedica também atenção especial à contribuição de Aristóteles para a arte e a literatura. Em sua Poética, o filósofo analisou a tragédia e a comédia, definindo conceitos que influenciaram toda a estética ocidental. Strathern destaca a célebre ideia de que a tragédia desperta “terror e piedade”, purificando essas emoções através da catarse. Ele observa, com ironia, que é curioso um pensador tão racional ter formulado uma das interpretações mais emocionais da arte. Essa dualidade entre razão e sentimento é um dos pontos mais humanos do pensamento aristotélico.

Outro aspecto importante abordado por Strathern é o trabalho científico de Aristóteles. O filósofo observava e classificava plantas e animais, buscando entender suas causas e finalidades. Seu princípio de que “a natureza nada faz em vão” resume sua confiança na ordem e no propósito do mundo natural. O autor ressalta que, embora muitas conclusões de Aristóteles estivessem erradas, sua metodologia observacional foi um passo decisivo para o nascimento da ciência. Essa visão demonstra como a filosofia e a curiosidade científica estavam unidas na Grécia antiga.

O livro mostra ainda o papel do Liceu, escola fundada por Aristóteles em Atenas. Strathern compara o Liceu a uma universidade moderna, com pesquisa, debates e organização. O autor observa que, enquanto a Academia de Platão se voltava para o ideal, o Liceu se dedicava ao real, investigando as leis do mundo. Esse contraste simboliza a diferença entre as duas grandes tradições filosóficas da Antiguidade: o pensamento idealista e o pensamento empírico.

Na parte final da biografia, Strathern narra com sensibilidade os últimos anos do filósofo. Após a morte de Alexandre, Aristóteles foi acusado de impiedade e teve de fugir de Atenas. A frase atribuída a ele, “para que Atenas não cometa o mesmo erro duas vezes”, revela seu desejo de preservar a filosofia da perseguição que havia levado Sócrates à morte. Essa passagem encerra a trajetória de um homem que, apesar das dificuldades, manteve-se fiel à busca pela verdade.

O posfácio do livro amplia a visão histórica, mostrando a influência de Aristóteles ao longo dos séculos. Strathern explica como seus textos foram preservados, traduzidos e reinterpretados por pensadores árabes e cristãos, como Avicena, Averróis e Tomás de Aquino. O autor demonstra que, mesmo quando distorcido, o pensamento aristotélico continuou servindo de base para o desenvolvimento da lógica e da ciência. Essa herança intelectual confirma a importância duradoura de Aristóteles na cultura ocidental.

Strathern também reflete sobre as limitações do filósofo, mostrando que muitos de seus erros, como o geocentrismo e a crença nos quatro elementos, derivavam das concepções de seu tempo. Ele usa essa constatação para discutir um tema atual: os “paradigmas” do conhecimento, inspirando-se em Thomas Kuhn. O autor sugere que toda forma de pensar está condicionada a seu contexto histórico, e que reconhecer isso é uma forma de continuar o legado de Aristóteles — o de questionar o próprio pensamento.

Ao final, o livro apresenta citações e uma cronologia filosófica, o que reforça seu caráter didático. Essas seções funcionam como ferramentas de estudo e revisão, permitindo que o leitor situe Aristóteles dentro da história das ideias. Strathern consegue, assim, transformar um conteúdo denso em uma leitura leve, sem perder a profundidade que o tema exige. Seu mérito está em tornar a filosofia acessível sem simplificá-la demais.

O livro Aristóteles em 90 minutos é uma introdução envolvente à vida e ao pensamento de um dos maiores filósofos da humanidade. Através de uma escrita leve e instigante, Paul Strathern consegue equilibrar a biografia e a filosofia, revelando não apenas o gênio intelectual de Aristóteles, mas também o homem por trás das ideias. A leitura proporciona tanto conhecimento quanto prazer, sendo ideal para quem deseja compreender a origem da filosofia ocidental de maneira clara e agradável.

Em síntese, Strathern apresenta Aristóteles como o grande sistematizador do saber humano, cuja influência atravessou séculos e moldou a ciência, a ética e a política. O livro mostra como o filósofo grego construiu um pensamento baseado na observação e na razão, defendendo a busca pela virtude e pelo equilíbrio como caminho para a felicidade. O autor destaca também o impacto posterior de sua filosofia, especialmente na Idade Média e na ciência moderna.

As principais ideias do livro giram em torno da lógica, da ética da moderação, da centralidade da razão e da valorização da experiência. Strathern evidencia que Aristóteles não foi apenas um pensador teórico, mas um observador atento da natureza e da vida humana. Sua crença de que “a natureza nada faz em vão” e de que a felicidade está em realizar o melhor de nós mesmos permanece atual e inspiradora.

Por fim, Aristóteles em 90 minutos é mais do que uma simples introdução filosófica, é um convite à reflexão sobre o próprio ato de pensar. Paul Strathern mostra que compreender Aristóteles é compreender as bases da razão que ainda sustentam nosso modo de ver o mundo. É uma leitura que ensina, instiga e aproxima o leitor da sabedoria clássica de forma acessível e prazerosa.

O acesso a obras como "Aristóteles em 90 minutos" é importante para despertar o interesse e colocar o leitor diante de pensamentos que passam despercebidas nas rotinas do dia a dia. Para aprofundar e detalhar mais as ideias apresentadas neste texto é importante que se busque a leitura completa do livro, bem como conhecer mais sobre Paul Strathern. Para ambas as atividades é possível encontrar material na internet.

REFERÊNCIAS

STRATHERN, Paul. Aristóteles em 90 minutos. Tradução de Maria Helena Geordane. Consultoria de Danilo Marcondes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. Disponível em: https://doceru.com/doc/n5eexne. Acesso em: 15 out. 2021.

ARISTÓTELES. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Arist%C3%B3teles&oldid=70094670. Acesso em: 23 out. 2021.

ARISTÓTELES. Toda Matéria. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/aristoteles/. Acesso em: 4 nov. 2025.

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