No tocante ao livro "Existencialismo é um humanismo", de Jean-Paul Sartre
O livro O Existencialismo é um Humanismo, de Jean-Paul Sartre, é a transcrição de uma conferência proferida pelo autor em Paris, em 1945, e publicada no ano seguinte. Nessa obra, Sartre busca esclarecer os princípios fundamentais de sua filosofia existencialista e responder às críticas que ela vinha recebendo de diversos setores, especialmente dos comunistas e dos cristãos. O texto é acessível e direto, sendo uma das exposições mais claras e populares do pensamento sartreano. A conferência aconteceu em um contexto histórico marcado pelo fim da Segunda Guerra Mundial, período em que a humanidade enfrentava uma profunda crise de sentido e buscava novas bases morais e filosóficas para compreender o valor da liberdade e da responsabilidade.
Jean-Paul Sartre foi um filósofo, romancista, dramaturgo e crítico francês, amplamente reconhecido como uma das figuras centrais da filosofia existencialista e do pensamento moderno. Nascido em 1905, Sartre dedicou-se a refletir sobre a condição humana, a liberdade, a consciência e a responsabilidade individual. Além de suas obras filosóficas, escreveu peças e romances que expressam suas ideias de forma literária, como A Náusea e Os Caminhos da Liberdade. Sartre também teve uma forte atuação política, engajando-se em debates sociais e defendendo a autonomia do ser humano diante das estruturas religiosas, morais e políticas de seu tempo.
O existencialismo, corrente à qual Sartre se vincula, é uma filosofia que coloca o homem no centro da reflexão, afirmando que ele é um ser livre, responsável e criador de si mesmo. Essa doutrina sustenta que “a existência precede a essência”, ou seja, que o ser humano primeiro existe, surge no mundo, e só depois define quem é por meio de suas ações e escolhas. Ao contrário de outras filosofias que buscam princípios universais ou uma natureza humana fixa, o existencialismo entende a vida como um processo de construção contínua, em que cada indivíduo deve criar o próprio sentido da existência, sem apoio em verdades absolutas ou divinas.
A seguir, será realizada uma exposição sintetizada do livro O Existencialismo é um Humanismo, de Jean-Paul Sartre, com algumas opiniões e reflexões sobre conteúdos específicos da obra.
Sartre inicia sua exposição destacando que o existencialismo foi mal interpretado. Muitos o acusavam de ser uma filosofia pessimista, individualista e desprovida de valores morais. O filósofo, no entanto, defende que sua proposta é o oposto disso: trata-se de uma doutrina otimista e humanista, que valoriza o homem ao reconhecer nele a capacidade de criar sentido e moralidade a partir de sua liberdade. O propósito da conferência é justamente esclarecer essas confusões e mostrar que o existencialismo é uma filosofia de ação e de responsabilidade.
Para desenvolver sua explicação, Sartre distingue dois tipos de existencialismo: o cristão e o ateu. O existencialismo cristão, representado por pensadores como Gabriel Marcel e Karl Jaspers, acredita em uma essência humana criada por Deus. Já o existencialismo ateu, defendido por Sartre, parte da ideia de que Deus não existe, e, portanto, o homem não possui uma natureza pré-definida. É essa ausência de essência que torna o ser humano radicalmente livre: ele é o que faz de si mesmo, por meio de suas escolhas e ações no mundo.
Sartre utiliza um exemplo simples, mas eficaz, para ilustrar essa diferença. Quando um artesão cria um objeto, como um corta-papel, ele o faz de acordo com uma ideia prévia — sua essência existe antes de sua existência material. No caso do ser humano, ocorre o inverso: ele primeiro existe e só depois constrói sua essência. Isso significa que o homem é um projeto aberto, que se define continuamente em cada ato. Assim, não há destino nem natureza humana fixa; há apenas a liberdade de construir-se.
A partir dessa liberdade absoluta, surge a noção de responsabilidade. Se o homem é o autor de seus atos, também é responsável pelo que se torna. E, segundo Sartre, essa responsabilidade é universal, porque, ao escolher, cada pessoa afirma um valor que serve de exemplo para toda a humanidade. Quando um indivíduo decide, ele não decide apenas para si, mas propõe uma imagem do ser humano que julga desejável. Dessa forma, toda escolha pessoal carrega um compromisso coletivo.
Essa consciência de liberdade e responsabilidade gera a angústia, um dos sentimentos centrais do existencialismo. Para Sartre, a angústia não é medo nem desespero, mas a percepção profunda de que nada determina o homem, e que, portanto, tudo depende dele. O ser humano se angustia porque reconhece que é o único autor de seus atos e que suas escolhas têm peso moral e social. A angústia, nesse sentido, é o reflexo da grandeza e da gravidade da liberdade humana.
Outra consequência da ausência de valores dados é o desamparo. O homem está “abandonado” porque não há Deus nem princípios universais que o orientem. Ele deve inventar o bem e o mal a partir de si mesmo, sem garantias externas. Esse desamparo, porém, é também a condição da autenticidade: somente quem reconhece que está só pode criar uma moral genuinamente humana. Assim, o existencialismo não destrói os valores; ele os reconstrói sobre a base da liberdade e da responsabilidade individuais.
Sartre também trata do desespero, termo que, em sua filosofia, significa aceitar os limites da ação humana. O homem não pode esperar resultados certos nem depender de forças externas; deve agir com base apenas no que está ao seu alcance. O desespero, portanto, não é uma desistência, mas uma forma de lucidez — é agir sem ilusões e sem esperar um sentido prévio para o mundo. Essa postura reforça o caráter ativo e prático do existencialismo.
Para tornar suas ideias mais concretas, Sartre apresenta o famoso exemplo do jovem que precisa escolher entre cuidar da mãe doente ou lutar na guerra. Não há moral universal que resolva esse dilema: tanto a moral cristã quanto a kantiana são insuficientes, porque oferecem regras abstratas. O jovem está só, e deve decidir por si mesmo, criando sua própria moralidade. Esse exemplo ilustra a essência do existencialismo: o ser humano é livre, e sua escolha é a expressão daquilo que ele deseja afirmar como valor humano.
Sartre também combate o determinismo, argumentando que o homem não é produto passivo de seu meio, de sua hereditariedade ou de suas circunstâncias. Embora fatores externos influenciem a vida, eles não anulam a liberdade. O que define o homem não é o que o mundo faz dele, mas o que ele faz do que o mundo faz dele. Essa afirmação revela o caráter ativo da filosofia sartreana: cada pessoa é chamada a transcender sua situação e a se reinventar constantemente.
Outro conceito importante é o de má-fé, que designa a tentativa de negar a própria liberdade. A má-fé ocorre quando o indivíduo se refugia em papéis sociais, desculpas ou determinismos para fugir da responsabilidade por seus atos. Fingir que “não há escolha” é uma forma de mentir para si mesmo. Em contrapartida, a boa-fé consiste em reconhecer a própria liberdade e agir de modo autêntico, assumindo as consequências de cada decisão.
Sartre enfatiza que a existência humana é essencialmente relacional. O homem se descobre a si mesmo apenas em contato com os outros. A convivência humana, embora marcada por conflitos, é também o espaço onde se reconhece a liberdade alheia. A relação com o outro não é uma limitação, mas uma confirmação de que a liberdade é um valor compartilhado. Assim, o existencialismo não isola o indivíduo; ele o insere numa dimensão intersubjetiva e solidária.
Essa intersubjetividade leva Sartre a afirmar que existe uma universalidade da condição humana. Todos os homens, independentemente de cultura ou época, enfrentam as mesmas condições básicas da existência: nascer, trabalhar, amar, sofrer e morrer. Cada um dá a essas experiências um sentido próprio, mas é possível compreender o outro porque todos participam de uma mesma condição de liberdade e finitude. Essa é a base do humanismo existencialista: reconhecer em cada homem a liberdade que define a humanidade como um todo.
Com isso, Sartre responde à pergunta central de sua conferência: por que o existencialismo é um humanismo? Porque, ao colocar o homem como o criador de seus próprios valores, o existencialismo reafirma a dignidade e a grandeza humanas. Ele não reduz o homem a uma engrenagem do destino, mas o enxerga como o único ser capaz de se construir e de construir o mundo. Para Sartre, a ausência de Deus não é uma perda, mas uma conquista de autonomia. O homem é livre, e é nessa liberdade que reside seu valor.
Sartre conclui que o existencialismo é uma filosofia do engajamento e da ação. O homem deve agir e escolher, pois é através da ação que ele dá sentido à vida e à humanidade. Não há essência que o determine nem desculpa que o absolva. O existencialismo é um humanismo porque devolve ao homem sua dignidade e o convoca a assumir, com coragem e lucidez, o peso de sua liberdade.
O existencialismo, conforme apresentado por Jean-Paul Sartre, é uma filosofia que busca reafirmar a liberdade e a responsabilidade humanas em um mundo sem fundamentos pré-estabelecidos. Ao retirar a existência de Deus como princípio explicativo, o autor devolve ao homem a tarefa de criar o próprio sentido da vida e de definir, por meio de suas ações, o que é ser humano. Assim, o existencialismo não é uma doutrina pessimista, mas uma visão realista e libertadora, que coloca cada indivíduo diante da exigência de viver de forma autêntica e consciente de suas escolhas.
Em síntese, como obra filosófica, O Existencialismo é um Humanismo representa o pensamento sartreano. Diferente de outros textos densos e complexos do autor, este livro tem caráter introdutório e didático, voltado a explicar ao público geral os princípios básicos do existencialismo. A obra não apenas responde a críticas e mal-entendidos sobre essa corrente filosófica, mas também a apresenta como uma proposta ética e humanista, centrada na liberdade e na responsabilidade individual.
Entre as principais ideias desenvolvidas, destacam-se os conceitos de que “a existência precede a essência”, a liberdade como condição fundamental da existência humana, a responsabilidade por si e pelos outros, e a consciência da angústia e do desamparo como partes inevitáveis da vida livre. Sartre também explora noções como a “má-fé”, que consiste em negar a própria liberdade, e a intersubjetividade, que mostra que o homem se compreende sempre em relação aos outros. Todos esses elementos convergem para uma mesma conclusão: o ser humano é o autor de seu destino e o criador de seus valores.
Por fim, O Existencialismo é um Humanismo é uma obra que convida o leitor a refletir sobre sua própria existência e a assumir a responsabilidade de ser livre. Sartre propõe uma filosofia de ação e autenticidade, que valoriza o homem como construtor de si mesmo e do mundo ao seu redor. Sua mensagem permanece atual, pois continua desafiando cada pessoa a viver com consciência, coragem e compromisso diante da tarefa de existir.
Para aprofundar e detalhar mais as ideias apresentadas neste texto é importante que se busque a leitura completa do livro O Existencialismo é um Humanismo, de Jean-Paul Sartre, bem como conhecer um pouco mais sobre o autor. Para ambas atividades é possível encontrar material na internet.
REFERÊNCIAS
SARTRE, Jean-Paul. Existencialismo é um Humanismo. https://doceru.com/doc/nenxcxcx
JEAN-PAUL SARTRE. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2025. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Jean-Paul_Sartre&oldid=70997728>. Acesso em: 10 out. 2025.
A Angústia da Liberdade. IN: WARBURTON, Nigel. Uma breve história da Filosofia. Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. p. 135-138.
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